Vasco Mina
Testemunho de doente
27-03-2012
Tudo começou com um inchaço no pescoço. Parecia uma reacção alérgica ou então algo muscular. Nada de invulgar se tinha registado até à data e a deslocação descontraída ao Hospital de Tomar (estava de fim-de-semana fora…) marcou um regresso contraído a casa.
Mal imaginava que a minha vida ia dar uma “volta”…
Nos dias seguintes consultei vários médicos e os olhos deles diziam aquilo que a boca não permitia. A consciência de que algo de grave estava a acontecer aumentava em cada conversa e os primeiros exames (análises sanguíneas, urina, radiografias, ecografia) eram disso um indicador.
Num ápice estava no IPO. Onde tinha estado pouco tempo antes para acompanhar a minha mãe numa intervenção cirúrgica. As “voltas” que a vida dá!...
Lá fiz a bateria de exames que se impunha e depois… o diagnóstico! Jamais esquecerei aquele dia, aquele gabinete. Eu e a minha mulher sentados em frente à médica. Com toda a serenidade, mas também com muita objectividade, a Dra. Maria de Jesus Frade foi apresentando os resultados dos tais exames e eu tinha um linfoma Não-Hodgkin. Era um quadro clínico considerado de gravidade mas com boa expectativa de cura.
É difícil exprimir por palavras o que senti naquele momento. Claro que foi um choque e foi de facto uma surpresa. Mas a batalha campal de sentimentos que se travou no meu íntimo não a consigo relatar. Recordo-me que eu e a minha mulher trocámos olhares e foi no silêncio que dialogámos. Estávamos juntos perante a mesma realidade e esta era avassaladora.
Ultrapassado aquele momento em que nada se consegue dizer, esforcei-me por ser objectivo e em busca da frieza possível para perguntar quais seriam os passos seguintes.
A terapia teria de se iniciar quanto antes. Seriam 6 a 8 ciclos de quimioterapia e consoante os resultados parcelares e finais seriam analisadas outras eventuais abordagens.
Assim foi feito e dias depois lá estava no Hospital de Dia.
Ainda antes de partilhar o que foi a minha vivência no IPO a partir da primeira sessão de quimioterapia, gostaria de salientar o quão importante foi ter a Rosarinho ao meu lado. Vivemos tudo isto a dois e foi em casal e em oração (assumo a minha fé e a opção pelo catolicismo) que encontrámos a força para, com a serenidade possível, viver este desafio.
Outra dimensão marcante para quem se defronta com um linfoma é a relação com aqueles que nos rodeiam. Em primeiro lugar a relação com os nossos filhos. Procurámos beber da sabedoria daqueles que passaram por experiências próximas das nossas e tivemos muito em conta os conselhos que ouvimos.
Optámos por isso por explicar às crianças o que se passava, com muita naturalidade, não escondendo o problema mas também sem entrar em detalhes desnecessários. Tenho 3 filhos que nessa altura tinham entre seis e onze anos de idade. Ainda bem que o fizemos pois também eles foram um grande apoio. Lembro-me de um Sábado de manhã lhes ter dito que iria corta o cabelo (este iria cair pelo efeito da terapia) bem rapadinho, tipo máquina 3. Não acreditaram e fizemos uma aposta: uma das minhas filhas disse-me que daria 50 cêntimos se o fizesse. Lá fui ao barbeiro e quando regressei foi uma risada geral e até acabei por perder a aposta (o mais velho não gosta de perder nem a feijões) pois entenderam que o cabelo do pai não estava suficientemente cortado para ser considerado máquina 3.
Ainda na perspectiva da relação com os outros, foi muito estimulante ouvir o testemunho daqueles (e foram vários) que passaram pelo mesmo. Dá uma grande força e são testemunhos que nos ajudam quer no quotidiano quer na construção da esperança da cura.
Por outro lado, a solidariedade (de que hoje tanto se fala) dos muitos familiares, amigos e colegas foi muito sentida e vivida. Não é possível agradecer devidamente neste testemunho pois foram muitos e de forma muito variada que o fizeram. Diria apenas que me senti levado ao colo como se fosse um recém-nascido que precisa de todo o apoio, conforto e carinho.
A dimensão da fé, da relação com Deus, foi o elemento enquadrador da forma como procurei viver este desfio. Logo no início procurei rezar mais intensamente e optei por “subir à montanha”, tendo estado em retiro espiritual durante alguns dias. Encontrei a paz espiritual que buscava e a serenidade para olhar a os acontecimentos como um passo na minha caminhada em direcção ao Pai.
O Hospital de Dia foi local de visita obrigatória durante oito sessões. Na primeira, estive numa sala em que também estavam outra pessoas. Desculpem a expressão, mas uma espécie de “sala de chuto”. As seguintes sete sessões estive num quarto pois a partir da segunda a médica acrescentou à quimioterapia o anticorpo monoclonal, o que implicou algumas horas de tratamento por sessão.
A forma como fui tratado e acompanhado é a dimensão mais importante de toda a minha passagem pelo IPO, Em primeiro lugar o carinho e a atenção de todos os funcionários. Repito de todos pois quero incluir não só a minha médica mas também os enfermeiros, os técnicos, os auxiliares, os administrativos e os voluntários.
A organização também conta e quero deixar a devida nota muito positiva. Trabalho numa grande empresa do sector privado e sei por isso o quão difícil é gerir pessoas e processos. No IPO as datas e horas dos tratamentos agendados foram sempre respeitadas. A título meramente ilustrativo, lembro-me das recolhas de sangue ( e foram muitas as que fiz ) em que o tempo de espera foi sempre muito reduzido e eram às dezenas aqueles que estavam “em fila”.
As sessões terapêuticas realizaram-se sempre às sextas-feiras, intervaladas por três semanas. Os Sábados (verdadeiros “day-after”) foram duros mas sempre suportáveis. Mais uma vez aqui na companhia incansável da minha mulher e da compreensão das crianças que desde logo perceberam que nesses dias o pai queria estar sossegado e não podia estar presente nos habituais programas de fim-de-semana. Aos Domingos a boa disposição voltava a manifestar-se e os enjoos desapareciam por completo. Às segundas-feiras fui sempre trabalhar e isso deu-me muita força.
A atitude positiva foi um conselho que recebi daqueles que passaram pelo mesmo. Nem sempre consegui pôr em prática mas ajudou-me muito. Recordo-me de alguém me ter dito que deveria olhar para as sessões seguintes não na perspectiva das que ainda faltavam, mas sim daquelas “já só” tinha de fazer. Reconheço que fez toda a diferença esta nuance e um grande bem-haja para quem a partilhou comigo.
A evolução dos resultados dos tratamentos não poderá ter sido mais positiva. Após a quarta sessão eram muito animadores e concluída a sexta os resultados revelavam que a quimio e a imunoterapia ainda estavam a fazer efeito. Por esta razão avancei para mais duas sessões. Por fim aquela que viria a ser a última bateria de exames e poucos dias depois do Natal recebi a melhor oferta desta quadra: estava em remissão. Mais uma vez é difícil partilhar os sentimentos vários que percorreram a mina alma.
No momento em que termino estas linhas estou a realizar exames após seis meses sobre o final do tratamento. Agora sou cliente do IPO. Passa a ser uma dimensão da minha vida. Não sei o que me espera, mas sei que a vida se vive em cada dia e que cada dia é diferente do anterior. Mais do que tudo, passei a olhar a vida de uma forma diferente, a relativizar os problemas e a dar importância a coisas tão simples como… um pente! Sim, agora o meu cabelo voltou a crescer, já me penteio e nos próximos dias voltarei ao barbeiro para o cortar sem ter de entrar em novas apostas com os meus filhos.
Autor: Vasco Mina
