Uma doente
Testemunho de doente
27-03-2012
Confrontada com o diagnóstico de Leucemia, o mundo desabou sobre nós.
Para quem tinha sido sempre saudável e gostava de viver, para quem se considerava feliz, perspectiva de ter uma doença fatal é desoladora.
No meu caso o que aconteceria aos meus filhos, ainda pequenos?
No meio deste impacto permanece o pânico do futuro - que futuro? -, ao lado da esperança de estarmos dentro da percentagem dos que conseguem ultrapassar esta prova e que a vencem.
Iniciados os longos e, por vezes, penosos tratamentos, vividos os arrastados internamentos, há que manter a disponibilidade física e mental para aceitar os constantes avanços e recuos que a doença e as sequelas dos tratamentos nos vão oferecendo. O tempo durante a doença não pode ser contabilizado – é uma aprendizagem que vamos fazendo, só importará ser valorizado depois de ultrapassado este mau bocado.
O grande profissionalismo, a dedicação e o carinho que nos são prestados pelos profissionais que nos acompanham contribuem muito significativamente como suporte da longa caminhada que temos que percorrer. No meu caso foi prestimosa, e apraz-me aqui reconhecê-lo, o valioso auxílio que sempre recebi dos médicos, dos enfermeiros e das auxiliares de acção médica do IPO de Lisboa. A diferença, então quando é pela positiva , sente-se.
Este testemunho não ficaria completo se não referisse a incomensurável ajuda que recebi dos meus familiares e amigos que, com o sacrifício, por vezes, da sua vida pessoal e com muito amor sempre estiveram ao meu lado e sempre me transmitiram força e alento. Nos momentos mais difíceis, de maior debilidade física e/ou psicológica a “simples” presença de uma pessoa que nos conforta, alivia a nossa dor, dá-nos fôlego para mais uns dias. Também a eles obrigado.
Neste momento - Setembro de 2002 – ainda não superei a doença, estou em convalescença de um alo-transplante não relacionado, o qual, até à data, tem sido bem mais fácil que muitos tratamentos anteriores, mas parece-me poder alimentar a esperança de ainda poder vir a desfrutar a vida com alguma qualidade. Partilhá-la com aqueles que mais amo, acompanhar os meus filhotes.
Mas, ainda hoje, três anos volvidos sobre o diagnóstico, não compreendo como isto me aconteceu a mim, acho que não estava “fadada” para estas tarefas e entendo tudo por quanto passei e estou a passar como uma missão de que fui encarregue.
Pelo que já cumpri e se conseguir terminar agradeço a Deus.
Uma doente.
