Telma Teixeira
Testemunho de dador
09-05-2013
"O melhor de tudo foi ter tido a possibilidade de dar a alguém a esperança de naquele dia ser o primeiro dia do resto da sua vida.."
Era Dezembro...
Recebi uma carta registada dos Dadores de Medula (CEDACE) a pedir para entrar urgentemente em contacto. Estranhei mas liguei imediatamente para o número indicado. Uma voz de alívio responde do outro lado "já a tínhamos tentado contactar, mas o número de telemóvel deve estar errado", e efectivamente estava. Antes de o corrigirem partiram para aquilo que era mais importante naquele momento:
"Você é compatível com um doente. Podemos contar consigo?"
Nesse momento não soube o que dizer, penso que me saiu um "sim" tremido, relutante, surpreendido pelo inesperado. Sou dadora de medula desde os 18 anos, nunca me chamaram, não conhecia ninguém que tivesse passado por isso. Seguiu-se um breve explicação telefónica, que foi um pouco assustadora "há dois métodos de fazer a colheita: periférica (através das veias) ou através de punção lombar, o que prefere?" Escolhi imediatamente a primeira por me parecer menos dolorosa para mim. Pediram-me que me dirigisse ao Hospital Pulido Valente assim que pudesse para fazer análises, preencher um questionário e tirar todas as dúvidas com quem me atendesse. No dia seguinte fui lá. Preenchi um questionário sobre a minha vida clínica e hábitos diários, tiraram-me sangue e estive à conversa com uma senhora que me explicou novamente os procedimentos por alto.
Fui para casa e esperei cerca de dois meses até me chamarem novamente. Durante esse período de tempo ligaram-me duas ou três vezes para saber se eu ainda estava interessada ou se queria desistir. Esses telefonemas provocaram-me um certo desconforto, perguntava-me porque demorava tanto tempo, se tinha a ver com burocracia, se seria por se ter metido a altura do Natal e Passagem de Ano, seria porque havia mais dadores para aquele doente, seria por causa do doente...? Na altura não me souberam responder concretamente, ouvi apenas que "o médico está a analisar tudo". Mais tarde percebi que o tempo que esperamos está relacionado com a situação em que o doente se encontra, provavelmente ele ainda estaria a fazer quimioterapia e o organismo dele ainda se estava a preparar para receber a medula o mais "fresca" possível. Tudo tem que ser feito no tempo certo.
Finalmente contactaram-me e a partir daí foi tudo muito rápido, "a família do doente quer que seja você", eles escolheram-me, eu não podia falhar, não me podia acontecer nada a partir daquele momento.
Passei uma manhã no IPO de Lisboa acompanhada por um membro do CEDACE a realizar exames (electrocardiograma, raio-x ao tórax, ecografia abdominal e novamente análises), mas como dadora nunca esperei para os fazer pois essa condição permitia-me passar à frente de toda a gente. É de referir que todos os custos (transporte, alimentação, faltas ao trabalho...) são todos suportados e resolvidos pelo CEDACE.
Depois disso seguiu-se uma longa conversa com a médica do doente, a que iria acompanhar a minha recolha de medula.
Como tenho uma pequena hérnia na zona lombar justifiquei-lhe a escolha da recolha periférica e a médica concordou. Mas o processo não passa apenas por chegar lá e doar a medula. É aqui que existem muitos mitos e falta de informação. Medula óssea não é o mesmo que medula espinal, a primeira retira-se da bacia e a segunda fica no meio das costas. A espinal, se for danificada (exemplo: acidente de carro) pode paralisar os membros. A medula óssea não compromete nada, está sempre a produzir-se no nosso corpo e podemos doar várias vezes, é como dar sangue.
A punção lombar realiza-se em bloco operatório, com anestesia e demora cerca de 30 minutos. A recolha periférica demora cerca de 5 horas. Ambas causam algumas dores, no pré ou no pós, mas nada que impeça de ir trabalhar no dia seguinte.
Pois bem, após a conversa com a médica e a definição da data da recolha ficou assente que durante os quatro dias que antecederam a recolha teria que levar duas injecções por dia (que dei a mim própria na barriga para evitar ter que ir sempre ao IPO ou ao Centro de Saúde). A primeira foi-me dada e explicada por uma enfermeira mas nessa noite já tive que ser eu a testar a seringa e a espetá-la em mim. Demorei algum tempo a ganhar coragem, mas só custou a primeira! À segunda já me sentia uma autêntica enfermeira e fazia aquilo num instante. Mais tarde soube que as quantidades estavam relacionadas com o sexo e idade do doente, no meu caso só fiquei a saber que era um senhor com 37 anos, nem sei se era português. Todo este processo é confidencial, eu nunca saberei quem é o doente nem o doente saberá quem sou eu. Aliás, o sangue e medula recolhidos são sempre identificados por números.
Estas injecções provocam alguns sintomas de gripe (sobretudo no segundo dia): dores no corpo, febre, cansaço... mas é apenas para enganar o corpo, na realidade não chegamos a ficar doentes. Nada que não se suporte ou que não tivesse já sentido na minha vida, tomei alguns ben-u-ron e tentei descansar o máximo possível. Durante esses dias pensei que tudo o que pudesse sentir não se comparava ao que o doente já teria passado até ali, não me podia queixar, não era legítimo... era apenas ser maricas. As injecções permitiram então que o meu organismo produzisse mais glóbulos brancos e consequentemente mais medula.
Chegado o dia da recolha, apresentei-me tal como combinado, no IPO às 8h, na esperança de ter produzido medula suficiente para a recolha. A máquina estava a ser preparada pela médica e eu fui-me equipar com a bela bata de hospital. Eu que até tinha ido de fato de treino para facilitar a vida às enfermeiras e a mim própria. Sem sucesso. Depois deitei-me numa cama de hospital, ao lado da máquina. Era apenas eu, a médica, cerca de 4 enfermeiras muito simpáticas e inúmeros tubos e sacos para ajudar no processo. Durante uma hora o centro das atenções foi o meu braço direito e a frase que ouvi mais vezes nesse espaço de tempo foi "você não tem veias". Rebentaram-me três, colocavam-me sacos de água quente para as dilatar, faziam-me massagens e às tantas já nem sentia o braço. Há pessoas que, já sabendo que as suas veias são más, preferem colocar um cateter, mas eu não sabia, nunca me tinha acontecido tal coisa. Comecei a pensar que não ia conseguir dar medula, que ia ser uma desilusão. Eis que por fim me encontraram uma veia que não rebentou! Não mexi mais o braço nas cinco horas seguintes, não podia correr o risco de rebentar a meio do processo e estragar tudo. O braço esquerdo foi logo à primeira, as veias são "normais". O sangue sai do braço esquerdo, entra para a máquina que faz uma espécie de centrifugação muito lenta retirando apenas o que interessa (medula) e devolvendo ao meu braço direito o restante que não precisa. Este retorno não é obrigatório (se não me tivessem encontrado veia no braço direito também não se ia deixar de fazer a recolha), mas como é lógico é melhor para o dador. No total foram cinco horas de recolha, o normal portanto. De x em x tempo tinha que beber magnésio e cálcio e comi uma banana a meio da manhã. Estive sempre a receber soro e um líquido para que o sangue não coagulasse.
Não consegui adormecer (o que teria sido perfeito) mas passou-se bem. Ok, chega a um ponto em que já não se tem posição e os braços estão dormentes porque não nos podemos mexer muito mas pensar na felicidade que vamos proporcionar a alguém faz-nos esquecer todo o desconforto daquele momento.
A quantidade final de medula nem a meio saco chegou, mas foi a suficiente para não ter que voltar lá no dia seguinte para me retirarem mais.
Almocei e fui para casa, e no dia seguinte já estava quase a 100%.
Já passou mais de um mês, já fui novamente ao IPO fazer análises de rotina (as quais terei que fazer uma vez por ano durante os próximas quatro anos por ser uma regra dos Dadores), recebi telefonemas do CEDACE, da médica, fui super bem tratada por todos e ainda "ganhei" a isenção do pagamento de taxas moderadoras por tempo indefinido.
