Sílvia Cantarinhas
Testemunho de doente
03-04-2013
No meio de toda esta situação só uma instituição me tem valido sempre que as aflições se tentam superar no dia-a-dia, a APCL.
Desde muito cedo, na mais tenra idade que soube o que era a luta diária e contínua, assim, com a solidão, sempre como companheira, fiz de mãe de três irmãos, cuidei de casa e de uma quinta com os seus animais, que também faziam parte dos tantos afazeres difíceis que constituíram toda a minha infância, toda a minha vida.
Com catorze anos e sem a orientação ou a palavra de um adulto atento, pelo quer que fosse; comecei a trabalhar. E aos dezoito anos comecei a fazer os meus descontos, em fábricas como a DAN CAKE na apanha de melão e tomate ou o que quer que fosse, mas nunca mais parei, inclusive nem doente gostava de faltar.
O tempo foi passando, e hoje apercebo-me da falta que fez o tal adulto, que contrabalançasse os excessos próprios de um adolescente.
O corpo ia sendo maltratado numa idade em que uma alimentação o descanso e as regras precisavam de estar presentes. E a querer saber qual o espaço que me pertencia neste mundo, sozinha, as prioridades começaram a ser trocadas. Fumava, bebia e perdia noites, e no meio de tudo isto a mais – valia de uma alimentação equilibrada também se perdia. Mas os percursos tumultuosos da vida assim como as quedas que nos obrigam a levantar, mais não servem, ou serviram, para me fortalecer o carácter que, tanto me tem valido.
Casei e nasceu o meu filho. Uma enorme razão do meu viver, e aqui a saúde já tinha um enorme peso nas minhas opções diárias. Precisava de estar bem para cuidar de um ser que tanto dependia de mim. Separei-me e continuei a caminhar a cair e a ressurgir cada vez que a isso era obrigada.
Nestes anos de trabalho nunca parei Mas, há dois três anos tudo mudou!
Comecei a ter febres noturnas, perca de peso assim como da menstruação por entre toda uma panóplia de queixas. Às quais a minha médica nunca deu muita atenção. E tudo se desenrolou através de duas estupendas médicas que se indignaram com a forma desumana com que a minha médica do hospital de V.F.Xira se descartou de uma jovem com um filho e uma vida para cuidar.
Depois de uma biópsia, foi-me então diagnosticado um linfoma de Hodgikin e sou encaminhada para o hospital dos Capuchos. Onde encontrei uma equipa humana e atenciosa.
A minha médica negligenciou a minha situação a nível de saúde e o meu patrão depois de seis anos de trabalho prometeu-me que jamais me enganaria, quando soube do meu linfoma e me apresentou uma carta de despedimento. E eis que quando me dirijo ao fundo de desemprego para pedir o subsídio do mesmo, me explicam que da maneira como foi preenchido o formulário não me dava acesso a qualquer tipo de ajuda monetária proveniente do Estado, aquela entidade para qual sempre descontei e que agora doente nada iria receber, sequer para me alimentar. Com um linfoma. Tudo isto foi na altura após rebentar a crise, e muitos, muitos patrões se estavam a aproveitar dessa situação para que sempre que possível escaparem-se ao cumprimento e ao respeito pelos direitos do trabalhador.
Por fim e para compor “o ramalhete” contínuo ainda hoje a lutar junto de assistentes sociais, numa luta que começo a dar por perdida.
O Estado continua a repetir-se sempre que me diz não haver dinheiro, nem para quem padece de problemas de saúde. Durante este ano de luta junto com a minha médica dos Capuchos, foram muitos os tratamentos que não puderam ser feitos devido a uma anemia persistente. Já que não entra dinheiro nenhum em minha casa que me permita uma alimentação saudável e diária.
Até hoje consegui um saco pequeno com alguns alimentos por mês, através da única pessoa que se tem preocupado comigo, o assistente social do hospital dos Capuchos também ele tem lutado junto da assistente social da minha zona por uma reforma, reforma essa que poderá evitar que volte a passar pela situação desesperante que tenho passado, o medo constante de ser despejada pagar água, luz. Comer tem sido devido à bondade de várias pessoas.
No meio de toda esta situação só uma instituição me tem valido sempre que as aflições se tentam superar no dia-a-dia, a APCL. Através deles os meus senhorios ainda acreditam na minha vontade de ultrapassar esta situação.
A equipa médica dos Capuchos assim como o respectivo assistente social, e este que pôde contar com uma instituição que neste meu percurso se disponibilizou em ajuda fazendo sentir-me gente no meio de tantas falhas.
Associação Portuguesa Contra a Leucemia
Instituição que nunca mais vou esquecer!
