Sílvia
Testemunho de doente
29-03-2012
A Minha Querida Leucemia
A minha vida começou a mudar numa segunda-feira, dia 8 de Março de 2010 – Dia Internacional da Mulher – de 2010. Nessa manhã fiz a viagem até Coimbra, eu, o Jó (meu marido) e a D. Armanda (minha sogra). Dirigimo-nos ao Hospital Universitário de Coimbra (HUC), onde ficámos de nos encontrar às 10h, com o Dr. Manso… A viagem não foi muito fácil… mas consegui aguentar-me. As dores e a diarreia eram o meu pesadelo vivo. Depois da operação às hemorroidas, no dia 23 de Fevereiro, tudo se foi complicando… uma operação que, aparentemente, era um processo simples, foi complicando de dia para dia e cada vez me sentia mais cansada e completamente sem forças. Até esta altura a indicação que tínhamos era que teria de tirar o intestino grosso. Acabei por ficar internada e levei logo, nesse dia, 2 transfusões de sangue. O dia seguinte foi reservado para exames. Depois do susto inicial, de ter ficado internada, comecei a manhã menos tensa… Dali a pouco o Dr. veio buscar-me para fazer uma rectossigmodoiscopia e isso foi bastante doloroso. A seguir encaminhou-me para Onco-Hematologia, com o objectivo de me fazerem um mielograma… antes de iniciar a recolha, a Dra. responsável explicou-me que o objectivo era terem um resultado mais exacto do sangue… O Jó veio com os pais visitar-me. As emoções estavam ao rubro… fui recebendo várias mensagens e telefonemas…
Dia 10 de Março de 2010 – Este dia foi o dia que mudou a minha vida. Depois de ter ficado com a ideia de que poderia ir para casa, o Dr. voltou, ficou à minha frente e disse: "Sílvia, afinal já não podes ir para casa. Tens Leucemia!" Assim… sem mais nem menos… o mundo caiu-me em cima… ali, sozinha, nem sei o que pensei… ou melhor sei, mas não quero dizer… fiquei perdida, a rodopiar nos meus próprios pensamentos… O que me valeu naquele momento foi o Dr. Edgar. Um jovem médico, que já devia saber da notícia e veio acalmar-me. Deu-me a mão e foi explicando devagarinho que, hoje em dia, a ciência já está muito evoluída e que é preciso acreditar na cura… o Dr. Manso explicou-me que me iam transferir para onco-hematologia, logo que tivessem uma vaga. Foi o Dr. Manso que deu a notícia ao Jorge por telemóvel, eu não conseguia dizer nada… não tinha palavras… Nesse dia à tarde tive uma surpresa… o Jorge trouxe a minha filhota mais crescida, com 3 anos e meio - a Edna… e a minha felicidade, de a ver perto de mim foi muita… a outra filhota era muito pequenina, só tinha 13 meses… Há momentos que nos marcam para sempre… a carinha dela foi o meu bálsamo e ao vê-la, acreditei que tinha que lutar para ficar com ela e com a mana… a minha escolha era essa. Lutar! Vencer! Ainda hoje me arrepio ao recordar esse dia… Leucemia era uma palavra que evitávamos na nossa família… e, agora, ia ter que a ouvir e lidar com ela dias sem fim… o Tio Tiago teve Leucemia e morreu no dia 19 de Junho de 1984… o tio David teve leucemia e morreu no dia 9 de Junho de 1991… e eu, sou o terceiro caso na família e não queria nem quero morrer… não para já… quero ver crescer as minhas filhotas, a quem chamo "piruetas", por andarem sempre numa roda viva, quero assistir aos primeiros dias, às festas na escola… quero conhecer os namorados… quero partilhar segredos e muitos momentos de mãe e filhas… quero ficar mais tempo com elas… quero tanto e tenho tanto medo!
Depois de tudo isto, fui transferida para a parte de onco-hematologia no dia a seguir e no dia 12 cheguei ao IPO, aconselhada Pela Dra. Emília do HUC, e pela equipa de apoio ao meu querido marido (primos e Dr. John)… Nem sei bem o que vos dizer sobre esse dia. A viagem foi dolorosa, demasiado tempo para pensar… a chegada foi um alívio. Foi mesmo. Tinha chegado ao local certo para iniciar a minha luta. O Jorge e a D. Armanda estavam à minha espera, com prendas… fomos logo encaminhados para o piso 6 de onco-hematologia. Cheguei e fui encaminhada para o quarto 19 – um quarto de isolamento – para aqui entrarem as pessoas têm de se "mascarar". Pelo menos parece. Têm de por a bata, a touca, a máscara… ficam mesmo camufladas, isto tudo para evitar o risco de contágio para mim, afinal temos de curar esta Leucemia Mieloblástica Aguda. Como este é um nome um pouco agressivo, passei a chamá-la de minha querida Leucemia (se eu a tratar bem, pode ser que ela retribua, certo?). O quarto tinha umas condições fantásticas, até quase dava para pensar que, afinal, estava num hotel, a passar uns dias de férias. Fui acolhida pela enfermeira Marlene, que me tratou com tanto carinho que julguei já estar a delirar. O tempo viria a comprovar que é prática daquela casa tratar os doentes assim… A Dra. Luísa foi-me explicando as coisas muito devagarinho, disse para não me preocupar com a polipose, para me esquecer, que agora tinha de canalizar todas as minhas forças para a minha querida Leucemia… e, assim, começou um longo fim-de-semana… que passou a ser de semanas e depois de meses… Assim instalada, estava pronta para enfrentar este grande desafio, viver na pele aquilo pelo que passaram os meus queridos tios… sei que eles estão comigo sempre, mas agora devem estar pendurados em mim, a acarinhar-me, a dar-me força e, se calhar, vai haver alturas que até me vão empurrar para a frente!
Assim começou a minha nova vida. Fiquei naquela casa 6 meses, com pequenos intervalos em que vinha a casa para recarregar forças e encher-me das minhas pequeninas para aguentar mais uma nova sessão de quimioterapia – a quem passei a chamar de quiqui, a minha amiga quiqui. Fiz 5 sessões de quimio. As duas primeiras foram bem fortes e os efeitos… acho que nem vou falar dos efeitos. O importante é que resultou, a minha querida medula entrou em remissão e, apesar de ter umas células atípicas, tudo tem corrido bem. Não consegui arranjar um dador compatível, mas tudo tem corrido bem, com alguns altos e baixos, mas sempre muito confiante, com muita fé… Acreditar é mesmo muito importante. Foi uma luta global e continua a ser… consegui reunir um cordão de força à minha volta, pessoas com quem já não estavam há muitos anos fizeram questão de dizer que estavam comigo e muitas me visitaram no IPO… a minha família esteve sempre presente, tentando equilibrar a minha ausência no que diz respeito às minhas filhotas, os meus amigos provaram que afinal não são daqueles que fogem nos dias menos bons… conheci pessoas que se uniram a mim, devido à minha querida Leucemia, e que continuam a acompanhar-me e a darem-me força… Nunca me senti sozinha. Tive dias mais tristes, mas era mais devido a estar longe de casa e das minhas meninas. A minha Dra., Isabel Oliveira, esteve e continua a estar sempre muito presente. Foi-me acarinhando nos dias mais difíceis, não deixando que eu duvidasse da cura, incentivando-me sempre a manter-me ocupada, explicava sempre todos os passos e preparava-me para as partes mais dolorosas. Para além de ser uma médica dedicada e preocupada, tornou-se numa amiga preciosa, alguém em que confio e que sei que não me mente. Isso é maravilhoso. Conheci os outros médicos da especialidade, por quem nutro um grande carinho. Mas, os que mais recordo e com quem continuo a lidar são mesmo a Dra. Isabel, a Dra. Luísa e o Dr. Luís… A Dra. Luísa fala sempre comigo quando me encontra no IPO e faz-me sempre lembrar de toda a amabilidade que sempre teve comigo e continua a ter. O Dr. Luís, acompanhou-me muitas vezes no IPO, mesmo nas piores alturas, fez-me imensos mielogramas e continua a fazer-me rir. No meio de tudo sou mesmo abençoada!
Aprendi muito. Reaprendi a viver. Comecei a dar valor a todas as coisas, mesmo as que parecem insignificantes. Para quem fica isolado muitos dias, a mais pequena coisa torna-se o melhor presente do mundo. Aproveitei o tempo da melhor forma. Estava ligada ao mundo exterior através da internet, li muito – os livros sempre foram um bom refúgio – escrevi muito – ao todo saí dali com 4 diários. Não podia parar, não podia deixar que a minha mente se ocupasse com algo que não valesse a pena. Resultou.
Saí do piso 6, do IPO do Porto, no dia 10 de Setembro de 2010. Atravessei o corredor entre muitos abraços, muitas palavras, muita força e muita crença… saí dali com as asas que a enfermeira Joana me deu para voar. Saí dali feliz, a acreditar que estava tudo bem, que tudo tinha corrido bem.
Dois meses mais tarde, voltei ao internamento de cirurgia para fazer a colectomia total. A cirurgia teve lugar no dia 11 de Novembro e, apesar do pós-operatório ter sido bem complicado, tudo correu bem. Foi um pouco difícil habituar-me à minha nova condição e à adaptação alimentar, mas, mais uma vez, reforço a ideia de que o mais importante é estar aqui. A vida é mesmo uma dádiva maravilhosa!!!
Depois de tudo isto, deixo-vos apenas com a certeza que estou bem, sinto a falta de algumas coisas, da minha vida profissional a que ainda não pude voltar, mas vou preenchendo o meu tempo da melhor forma, agradecendo cada novo dia, acreditando sempre num novo amanhecer, com muita esperança, força e fé!!!
"Tenho em mim todos os sonhos do mundo" – Fernando Pessoa
A Sílvia deixou-nos no dia 5 de Dezembro de 2012. A luta dela até ao final, até se esgotarem todas as forças, foi extraordinária. A Sílvia, a nossa "Libelinha Guerreira" como se auto intitulava, deixa muita saudade no coração de todos que a conheceram. Para sempre Sílvia!



