Paula Oliveira
Testemunho de dador
29-03-2012
"Eu sabia que eu tinha que ir àquela brigada registar-me como Dadora..."
Um pequeno gesto...
Mais um dia como outro, mais um e-mail de uma corrente para re-enviar para todos os contactos... Mas este e-mail viria a revelar-se muito diferente!
Recebi da minha tia, dia 13 de Janeiro de 2010 um e-mail como tantos outros antes deste, a pedir ajuda para a Teresa, o Afonso e a Carmen. Estaria no dia 19 a decorrer no auditório do Ginásio Club de Portugal a recolha de sangue para tentar encontrar dadores compatíveis.
Ainda não sei porquê, mas encaminhei-o para todos os colegas no dia seguinte, inclusive com croqui de como lá haveriam de chegar de transportes ou de carro e no dia 16 tive a confirmação de que uma colega iria comigo. Fomos só as duas, mas algo dentro de mim sabia que eu tinha de ir!
Assim, na nossa hora de almoço fomos até lá e alguns momentos depois, já com amostra de sangue recolhida e umas quantas informações sobre o processo de ser dadora de medula, saí, voltando ao meu dia a dia, quase esquecendo este momento não fossem vários pedidos posteriores para outras campanhas de recolha, aguardando que algum dia me chamassem. Passou o tempo, engravidei, tive a minha filhota e desde que ela nasceu, toda a minha vida se centra nela e cada respiração, cada bater do meu coração depende dela. A nossa sensibilidade muda... acho que todas as mamãs e todos os papás do mundo (e pai e mãe são aqueles que amam, criam, protegem e educam as suas crianças) sentem isto...
Em Novembro de 2011, a uns dias de a minha filhota fazer um ano, recebo um telefonema da CEDACE. Uma voz muito simpática do outro lado apresenta-se, pergunta-me se continuo disponível para ser dadora de medula óssea visto estar na base de dados deles e se neste espaço de tempo teria havido alguma alteração dos dados disponibilizados no dia da recolha. Visto estar tudo OK, se me importava de voltar a fazer análises, pois à partida haveria alguém que seria compatível comigo.
Não vos sei explicar, mas fiquei tão feliz!... Seguiram-se 2 idas ao ao CHS no Hospital Pulido Valente para fazer análises, separadas por um telefonema em que do outro lado anunciavam "boas noticias, os resultados voltaram a dar positivo!" e no dia 22 de Dezembro telefonam-me para me dar uma excelente prenda de Natal, talvez a melhor de sempre: Confirmava-se, a compatibilidade era de 100% e teria a possibilidade de salvar uma menina com praticamente a idade da minha filhota. Se já estava feliz e envolvida, naquele momento, tudo tomou uma dimensão diferente!
O único senão, o método com maior índice de eficácia para este caso seria a punção. De repente imaginei os pais da menina e foi demasiado avassalador imaginar que aquela menina podia ser a minha... nem sequer consigo imaginar o que aqueles pais estariam a passar... Respondi " Bem, dói mais um bocadinho, mas paciência... Claro que sim, claro que podem contar comigo!..."
Dia 27 de Dezembro recebo da Dra. Ana Correia da Cedace, um e-mail a explicar como tudo iria correr dia 13 de Janeiro de 2012 (exactamente 2 anos depois de tudo ter começado!), dia em que iria fazer todos os exames ao IPO. Foi no dia em que conheci as fantásticas Mónica Cunha e Dra. Mª. João Gutierrez que me acompanharam depois ao longo de todo o processo. Ficou agendada a consulta de anestesia para dia 17 e a recolha para dia 2 de Fevereiro.
É de louvar o envolvimento, a empatia, a simpatia e a Humanidade destas 3 Senhoras bem como de toda a equipa do IPO com quem tive o prazer de lidar.
Tenho de admitir, apesar de muito motivada, dia 2, ainda de madrugada e antes de sair de casa, fui despedir-me da minha filha que tranquilamente dormia ao lado do pai e o medo de não voltar a ver aquela carinha gelou-me a espinha... afinal, estava cheia de medo... e se eu não acordasse da anestesia? Não consegui evitar que as lágrimas me corressem cara abaixo quando a deixei e saí de casa. Respirei fundo e acelerei o passo até ao carro.
Tinha que estar às 7h no IPO e ainda tinha de ir deixar o carro com os meus pais. Outra feliz noticia, afinal não fui sozinha como pensava, eles foram comigo...
Depois foi tudo muito rápido. Dei entrada, atribuíram-me uma cama, desci ao bloco operatório, a Dra. Maria João entrou no bloco momentos depois e só me lembro de dizer "que bom, uma cara conhecida" e logo a seguir, já estava a acordar...
Todos à volta são preocupadissimos com o nosso bem estar. Tive alta na manhã seguinte e tirando uma moínha que ficou no local da punção e algum cansaço, sentia-me nova. Nada que paracetamol, sofá, cama e poder estar com a minha filha não tivessem resolvido. O que é certo é que retomei a minha vida na 2ª feira seguinte normalmente.
Passou-se uma semana, sinto-me completamente bem, sem dores, faço tudo normalmente e se pudesse ou se tivesse oportunidade fazia tudo outra vez amanhã!...
Se me sinto uma pessoa diferente ou especial? Não!... É um pequeno gesto... não custa nada... e pode fazer tanta diferença!
À bebé... bem, todas as minhas preces e de todas as pessoas que acompanharam comigo este processo estão com ela! Que possas ser muito feliz, muitos anos!...
PARABÉNS PAULA. O SEU "PEQUENO" GRANDE GESTO, SALVOU UMA VIDA!
