Patrícia Sousa
Testemunho de doente
02-04-2012
"Tudo começou numa tarde quente do final de Agosto. Foi tudo muito rápido..."
Tudo começou numa tarde quente do final de Agosto. Foi tudo muito rápido, no início dessa semana comecei a ter febre que vinha e desaparecia, comecei a sentir-me muito cansada o que para uma jovem de 19 anos habituada a andar bastante todos os dias era estranho ficar assim só por andar alguns metros, mas até aí nada me fazia desconfiar do que ainda estava para vir, culpando a febre por aquele cansaço. Entretanto fui começando a reparar que as minhas pernas estavam a ficar com muitas nódoas negras, só que como a minha casa estava em obras, móveis espalhados pela casa e eu desastrada como era pensei que seria simplesmente de bater nos móveis. No entanto por baixo das nódoas negras começaram a aparecer nódulos, pequenos altos e aí sim comecei a preocupar-me. A minha mãe levou-me ao nosso médico de família que me mandou fazer análises ao sangue o que fiz na manhã seguinte. Dessa manhã recordo-me bem de duas coisas, a primeira foi o quanto me custou fazer aquele curto percurso devido ao cansaço sentido e a segunda coisa foi o nervosismo sentido ao pensar que ia ser picada. À hora do almoço a minha mãe foi chamada para ir imediatamente buscar as minhas análises e levar-me com urgência ao hospital, no meu caso o Hospital de São José. Foi aqui o ponto de partida.
Eu estava muito nervosa, toda aquela situação era nova para mim, nunca até então me tinha dirigido às urgências de um hospital, sempre fui uma rapariga saudável. A médica que me atendeu inicialmente disse-me que poderia ter eventualmente uma febre da carraça ou mononucleose, embora tenha sabido posteriormente que havia outra suspeita mas dada a gravidade não me foi transmitida. Para todos os efeitos teria que ficar internada pelo menos quinze dias. No fim do dia transferiram-me para o Hospital de Santo António dos Capuchos, local onde iria ficar internada. Apavorada, sem saber o que tinha, não conseguia conter as lágrimas.
Depois de uma noite bastante agitada, com febres e nervos à mistura por não saber o que se passava comigo, no início da manhã seguinte fizeram-me um mielograma com biopsia óssea para confirmarem o que tinha.
A manhã passou, almocei e pouco depois apareceu uma médica no quarto. Falou comigo primeiro, perguntou-me se conhecia alguma doença de sangue, e depois caiu o meu mundo quando ela proferiu as seguintes palavras: " você tem LEUCEMIA LINFOBLÁSTICA AGUDA, tem cura mas o processo é demorado, terá de fazer QUIMIOTERAPIA, possivelmente vai ENGORDAR e PERDER O CABELO". As lágrimas não paravam de escorrer pela minha cara, eu queria agarrar-me a alguém, mas não tinha a quem... estava só no quarto, minha mãe ainda nem sabia o que eu tinha, estava à espera da médica no gabinete.
Aqueles minutos foram os mais longos da minha vida, perguntava-me porquê a mim, porquê eu, que sempre fui saudável, que era raro ficar doente, que nunca tinha ficado internada no hospital, sempre fui boa pessoa, eu não merecia um castigo tão grande como este... Coisas que passam pela cabeça naquela altura de desespero mas que hoje olhando para trás percebo que não fazem qualquer sentido, até porque no meio de tudo isto considero que até tive sorte graças a Deus.
Entretanto apareceu uma enfermeira no meu quarto que me ajudou a acalmar, enquanto a minha mãe não aparecia. Acho que nem a enfermeira em questão sabe o quanto fez por mim e o quanto lhe irei ficar agradecida para a vida.
Entretanto minha mãe apareceu, eu agarrei-me a ela, as lágrimas continuavam. Durante uns minutos ficamos assim abraçadas uma à outra, sem dizer uma única palavra. Até que finalmente me acalmei um pouco, ainda sem querer acreditar em tudo aquilo que me estava a acontecer.
A partir daqui sabia que teria uma longa batalha pela frente. Para já teria um mês de internamento, no mínimo. Este primeiro mês incluía dois tratamentos de quimioterapia, sendo que no total seriam oito tratamentos.
Logo no início, no fim dos primeiros dois tratamentos disseram-me que o meu tipo de leucemia necessitava de transplante. Aí foi um choque porque eu não sabia como era feito um transplante de medula óssea e por ignorância cheguei a perguntar à médica se era uma operação, o que percebi imediatamente que não seria assim. Tratava-se de uma mera transfusão de medula, como se de uma transfusão de sangue se tratasse só mudava o conteúdo. Estavamos em Outubro de 2008 e a partir daí começaram as buscas para encontrar um dador compatível.
Durante todo este processo mantive-me otimista e alegre, qualquer pessoa que estivesse comigo nesta altura via-me sempre com um sorriso na cara, claro que às vezes ia um pouco abaixo mas depressa levantava o ânimo, acreditando sempre que ia ficar bem.
No fim dos oito longos ciclos, em Junho de 2009 ainda não tinha o dador tão desejado, passando desta forma à fase seguinte, quimioterapia por comprimidos, enquanto aguardava. Esta fase não durou muito, pouco tempo depois (final de Julho) tive a triste notícia de que a doença tinha voltado! Novo choque, os pesadelos voltaram. Voltei a ser internada no mês de Agosto para fazer um novo tratamento, aí nessa altura fui-me um pouco a baixo, confesso. No final de Setembro tive das melhores notícias que já tive na minha vida, meu dador estava encontrado! Claro que teria que voltar a fazer um novo tratamento e recuperar-me, mas depois disso seria submetida ao tão desejado, ainda que temido, transplante.
Meu transplante esteve marcado três vezes, só à terceira é que consegui realmente fazê-lo. O que no fundo até terá sido o melhor para mim, uma vez que da primeira vez que estava marcado eu ainda estava a recuperar do último tratamento de quimioterapia, e da segunda vez de uma pneumonia e portanto estava fraca e sem forças suficientes para aguentar o transplante.
Já internada para fazer o transplante, com imunidade a zeros, outro imprevisto. O meu transplante estava marcado para dia 18 de Fevereiro de 2010, algo que não aconteceu. O meu dador era da Alemanha e nesse dia o avião atrasou-se. Um sufoco porque estava ali sem qualquer defesa, no entanto, no dia seguinte logo pela manhã já lá estava e finalmente realizou-se o transplante. Tratou-se de algo muito simples: um saco pendurado como se de um saco de sangue se tratasse e é feita uma transfusão. Senti-me bem em todo este processo, tive felizmente uma recuperação bastante rápida e nem um mês inteiro estive internada, o que para quem passa por isto sabe que é raro.
Hoje, já passaram dois anos de transplante, sinto-me bem, feliz, faço uma vida completamente normal, sem qualquer comprimido, graças a Deus continua a correr tudo bem. Considero-me uma rapariga de muita sorte apesar de tudo isto. Vi muita coisa, passei por muita coisa, conheci muitas pessoas e tudo isso mudou a minha maneira de olhar para a vida. Pequenas coisas que antes eram tidas como adquiridas e que hoje sei o quão importante são.
A APCL ajudou-me muito ao divulgar o meu caso, não sei se sem ela eu conseguiria encontrar o meu dador. Hoje sei que se não tivesse feito o transplante não estaria aqui a escrever este meu testemunho.
Agradeço do fundo do meu coração ao meu SALVADOR (que apenas sei que era da Alemanha) por gesto tão nobre de doar a sua medula a alguém que desconhecia.
Palavras que posso deixar a quem está a passar por uma situação semelhante são força, muita força e sempre mas sempre pensamento positivo
ACREDITAR SEMPRE
e sobretudo muita fé para quem acredita. Hoje agradeço ao meu salvador por gesto tão nobre de doar medula a alguém que desconhecia, agradeço aos medicos por cuidarem tão bem de mim, agradeço aos meus enfermeirinhos que sempre estiveram lá quando precisava, com os quais aprendi muito e que me animavam e esclareceram sempre todas minhas duvidas, às auxiliares sempre animadas e bem dispostas que nos animavam, às pessoas maravilhosas que conheci na mesma situação que eu ,algumas que infelizmente não me viram vencer esta batalha mas que sei que estão sempre comigo e um obrigada muito especial à minha familia e amigos sobretudo os meus pais que foram o meu pilar
Graças a todos eles eu hoje sou o que sou...Hoje agradeço ao meu salvador por gesto tão nobre de doar medula a alguém que desconhecia, agradeço aos medicos por cuidarem tão bem de mim, agradeço aos meus enfermeirinhos que sempre estiveram lá quando precisava, com os quais aprendi muito e que me animavam e esclareceram sempre todas minhas duvidas, às auxiliares sempre animadas e bem dispostas que nos animavam, às pessoas maravilhosas que conheci na mesma situação que eu ,algumas que infelizmente não me viram vencer esta batalha mas que sei que estão sempre comigo e um obrigada muito especial à minha familia e amigos sobretudo os meus pais que foram o meu pilar
Graças a todos eles eu hoje sou o que sou...

