Otília Pires de Lima
Testemunho de doente
29-03-2012
Hei-de morrer, mas não de leucemia.
Entrevista feita por Fernanda Soares em "Prevenir" Fevereiro 2007 Uma série de coincidências, que segundo Otília Pires de Lima não aconteceram por acaso, fizeram com que descobrisse que tinha leucemia. "Foi muito repentino e de uma forma galopante, o processo talvez tenha demorado pouco mais de um mês. Eu andava a sentir-me muito mal, pior de dia para dia. Cada vez tinha menos força, mas como trabalhava muito, pensei que fosse cansaço. Até que tive uma ligeira perda sanguínea entre o período menstrual, e como tinha o DIU há muito tempo e já estava na altura de trocar, fui ao meu ginecologista. Mandou-me fazer uma ecografia, que detectou um quisto de 6 mm (a partir de 5 mm já tem indicação cirúrgica), e comecei logo fazer exames para a cirurgia."
Aliviada por ter encontrado uma explicação para aquele cansaço, protelou um pouco o processo e deixou as análises sanguíneas para último. Foi buscá-las no dia em que a filha fazia 21 anos. "As análises estavam separadas, o enfermeiro disse-me que tinha de ir imediatamente para o hospital. Talvez por ter sido casada com um médico, pensei que era conversa de enfermeiro e não liguei. Mas eu ouvia barulhos na cabeça (mais tarde viria a saber que eram provocados pela falta de oxigenação do cérebro causada pela anemia) e a minha filha obrigou-me a fazer uma TAC.
Lá fui (já só estacionava de frente, já não tinha força nos braços). Quando disse à médica que estava com 6 de hemoglobina, ela disse-me que tinha de ir imediatamente para o hospital". Mas só o seu médico, depois de lhe telefonar a dizer o resultado das análises, a convenceria a ir para o hospital no dia do 21º aniversário da filha. "A partir daí foi mesmo um pandemónio". Deu entrada no hospital de São Francisco Xavier e, dois dias depois, foi transferida para o Hospital Garcia de Orta, em Almada, para o serviço de Oncologia.
Uma doença chamada leucemia
Otília iniciou então um tratamento que só mais tarde viria a saber ser faseado em três internamentos de cerca de seis semanas cada. "Suspeitei o que tinha quando me tentaram fizer a segunda biópsia óssea. Perguntei se achavam que eu tinha leucemia. Mas não esperei pela resposta. Tinha todos os dados, via as pessoas todas em pânico à minha volta... mas recusava-me a acreditar que tinha leucemia". Quando lhe disseram que se confirmavam as piores expectativas ficou sem saber o que fazer ou pensar. "Fui assaltada por toda a espécie de medos que tentava afastar. Foi um momento horrível, mas não me deixei ir abaixo. Estive sempre muito optimista, muito bem disposta, achava que aquilo era tudo um bocado surreal à minha volta. Acreditei sempre que iria sobreviver. Não pus outra hipótese. Não pedi muitas explicações, a razão era óbvia, quando menos soubesse, melhor, para não me condicionar."
O Tratamento
O optimismo que acompanhou Otília durante todo o processo foi particularmente notório no primeiro tratamento, em que teve uma força inexplicável. No segundo tratamento – em que chegou ao limite fisicamente - houve uma série de circuntâncias que a abalaram em termos psicológicos. "Só soube que tinha de fazer outro tratamento no fim do primeiro (não quis saber logo tudo) e não entrei com o grau de aceitação do primeiro, porque me sentia bem. Imagine o que é sentir-se e bem e saber ao que vai, ainda por cima em pleno Agosto; depois deixei de poder andar ainda antes de ficar fechada (parte do tratamento era feito em isolamento)... Nunca me revoltei contra a doença, aceitei sempre. Revoltava-me às vezes por ter de ser naquela altura, por ter de sofrer tanto, mas estes eram momentos pontuais, e descobri muito rapidamente que quando se iniciava qualquer processo de revolta eu sofria a quintiplicar. Costumo dizer que foi aí que aprendi mesmo na pele a importância extraordinária e imprescindível da aceitação" [ver caixa "amar, aceitar e perdoar].
O Prognóstico
Só ao fim do segundo tratamento, após a morte da Raisa Gorbachev, é que procurou informação sobre leucemia. "Esse momento não foi muito fácil, talvez por associação. Ela tinha exactamento o mesmo tipo de doença que eu e morreu numa das melhores clínicas do mundo. Portanto a morte dela abanou-me um bocado. Ao consultar a enciclopédia médica vi que há uns anos atrás não teria mais do que três meses de vida. Aliás, nessa altura comentei com a minha médica e ela disse que nem quatro semanas teria". Otília tinha o pior tipo de leucemia – mielóide aguda – e mesmo com auto-transplante a probabilidade de sobrevivência era de apenas 10%. "Quando soube, fiquei abananada, pensei que fosse um pouco mais".
A consolidação
O terceiro tratamento foi o da consolidação. "Percebi que nunca nada está feito, há sempre um processo construção-reconstrução a decorrer: quando dava as coisas por terminadas, caía tudo e era preciso construir de novo. E o que é extraordinariamente importante é que, cada vez que reconstruímos, o edificio fica mais sólido e, cada vez que se descontrói ou que nós caímos, vamos aprendendo a cair". O pior momento foi a morte de Pedro, um jovem de 16 anos que já estava internado quando Otília chegou ao Garcia da Orta. "Eu tinha entrado há pouco tempo quando ele fez 16 anos e fez-me impressão ver que alguém estava ali fechado a comemorar o aniversário; não perguntei nada, não queria saber. Por ironia, eu viria a fazer 43 anos no mesmo quarto, fechada também".
Um final feliz...
No fim do terceiro tratamento, a leucemia entrou em remissão e Otília estava pronta para fazer recolha de medula para posterior auto-transplante (é a opção mais indicada a partir dos 40 anos). Mas após duas recolhas de medula, em Junho de 2000, apenas conseguiu reunir um quarto do número ideal de células para fazer o auto-transplante. Havia outra alternativa: usar o tipo de células utilizadas anteriormente em auto-transplantes - dessas tinha imensas -, só que obrigava a muitas transfusões de plaquetas durante um ano ou dois. Mas estava-lhe reservada uma surpresa: em Outubro de 2000 descobriu que já não precisava de transplante. "Atendendo a que já tinha passado um ano desde que a doença tinha entrado em remissão, era como se tivesse feito transplante. Tinha entrado em equilíbrio, não me iam fazer rigorosamente mais nada". Otília não é um caso único, mas é um caso muito raro. Entrou em remissão completa. "O que em regra acontece é que a pessoa pode entrar em remissão e, passados uns tempos, a doença volta, o que Graças a Deus comigo não aconteceu. Já passaram sete anos. Eu vou morrer de uma coisa qualquer, mas disto não".
A vida depois da Leucemia
A vida de Otília mudou muito depois da leucemia. "Tenho uma forma de estar na vida completamente diferente, sou uma pessoa muito mais calma. Reconciliei-me com o tempo. O tempo não me perturba nada, nem em termos de idade. Acho que também fiquei mais tolerante, embora continue com algum mau feitio. Os meus objectivos mudaram completamente. Gostava imenso do mundo académico e de repente dar aulas passou a dizer-me zero. E devido a ter ficado com a memória afectada, aposentei-me. Para além disso, agora sinto, de uma forma muito premente, necessidade de me manter em equilíbrio emocional e psíquico. Hoje não me estou a ver - só de pensar me dá pele de galinha - estar sujeita a horários rígidos, porque preciso de tempo para mim, para voltar a estar comigo.
Amar, aceitar e perdoar
A fórmula de Otília Pires de Lima para vencer as contrariedades da vida
Ver o problema como uma oportunidade. "Tente perceber o que tem a aprender com a experiência. Eu sempre achei que era uma privilegiada – e não sou masoquista – porque aprendi tanto neste processo que acho que foi um preço justo".
Aceitar. "Eu acredito que as coisas não acontecem por acaso e, pela minha experiência, aceitar é o melhor caminho. Sendo que aceitação não significa resignação. Aceitando é que temos condições para ultrapassar as dificuldades, quando não aceitamos, em vez de gastarmos as energias a resolver o problema, gastamo-las na rejeição do problema".
Amar muito. "O amor é primordial: o amor por nós, pelos outros, por tudo. É a força mais poderosa do universo. Cura todos os males, derruba todos os muros e encontra caminhos onde eles não existem. Abençoar algo que é menos bom ajuda esse mal a desaparecer. Eu vivenciei isto, é mesmo assim. Foi o amor que me salvou, porque nunca me revoltei contra a leucemia".
Perdoar. "A si própria e aos outros. Se não formos para nós, não podemos ser para os outros. A maioria de nós é muito exigente consigo própria (eu era assim)".
Manter os amigos. "Psicologicamente, é fundamental sentir que somos importantes para alguém e que as pessoas não nos esquecem (ainda que isso não dependa só de nós...). E uma vez assegurada a parte psicológica, consegue-se sustentar a física; são vasos comunicantes".
Autor: Otília Pires de Lima

