Luís Mendes
Testemunho de doente
09-11-2015
"Nesta altura tudo está mais claro e daqui para a frente vejo esta vivência como uma passagem da minha vida"
Olá, sou o Luís Mendes, 38 anos, casado e pai de uma linda princesa de 4 anos.
Moro na linda cidade de Viseu e, profissionalmente, sou monitor de Logística na PSA de Mangualde. A minha vida sempre foi marcada por muita atividade em variados grupos sociais: elemento de uma tuna, organista num grupo de Igreja e executante numa banda filarmónica, praticante de futebol de 11 numa equipa de veteranos e tenho gosto por fazer uns trilhos de BTT. Como todos os trabalhadores ativos tenho alguns dias difíceis.
No mês de Maio deste ano, começaram a aparecer umas dores de costas que pensava serem relativas a posturas menos corretas e que seriam passageiras e passariam com alguns analgésicos. Os dias foram decorrendo e estas dores não passavam. Pelo contrário, tornaram-se um pouco mais acentuadas e incomodativas. Falei com um médico amigo e ele pediu para fazer um TAC na zona lombar/sagrada para ver o que andava ali a causar aquelas dores.
Já com este exame feito mas ainda sem saber o resultado, no dia 15 de junho, levantei-me como habitualmente para ir para o emprego e ao chegar à empresa senti uma forte dor de costas. Antes mesmo de iniciar o turno fui ao posto médico para me darem algo para aquelas dores. Administraram-me uma injeção para aliviar as dores.
Esperei que as dores abrandassem. Estive cerca de 2 horas sem fazer nada mas com o passar do tempo algo estranho ia acontecendo: as pernas tremiam, por vezes perdia o equilíbrio, sentia sensação de perda de força para caminhar e parecia que o chão desaparecera por baixo de mim. Alarmado, decidi ir às urgências. Cheguei às urgências já a caminhar de forma debilitada e após fazer várias análises, RX e fazer algumas medicações e estar cerca 6 horas, o meu estado clinico foi piorando. Fiquei sem sensibilidade e força nas pernas e parte do abdómen. No fim deste tempo todo nas urgências, o médico de serviço deu-me alta e disse que devia ser uma hérnia, que fosse para casa tomar medicação e que iria passar. Várias consultas se seguiram, foram realizados vários exames, todos inconclusivos, até que, numa consulta de ortopedia e após realização de alguns testes, o médico pediu uma ressonância urgente à parte dorsal.
Fiz este exame na semana seguinte. No dia a seguir ao exame, fui buscar o resultado e eu próprio ao ler o resultado vi o mundo a desabar à minha volta. Foi no dia 17 de junho de 2015. Tinha uma compressão na medula por um linfoma e que a possibilidade de metástases era de considerar. Senti uma incapacidade de raciocínio e de reação.
A minha mulher pegou no exame e foi à clinica onde tinha sido pedido o exame saber se o médico estaria lá para nos orientar. Ele não estava mas alguém encaminhou-nos para um neurocirurgião que estava a dar consultas na clínica. Ao ver o exame chamou-nos para um gabinete e nos esclareceu tudo ao mínimo pormenor do problema que ali estava descrito e aconselhou todos os passos a seguir, a partir daquele momento. Eram cerca de 18:00 da tarde do dia 17 de Junho de 2015. O médico disse: “Isto para vocês é um bicho-de-sete-cabeças, para mim é o normal do dia-a-dia. Preparem já a roupa e às 19:30 estejam no hospital para seres internado e preparado para ser operado e ser retirado o tumor caso a medicação não atue.” Senti uma confusão de emoções. Sentia desespero, perda de confiança e medo, entre outros sentimentos. Enfim, não sabia o que pensar ou o que fazer. Cerca de uma hora depois liguei aos meus pais para os informar sobre o problema que me tinha sido diagnosticado e para eles informarem algumas familiares e algumas outras pessoas do que se estava a passar, uma vez que eu tinha algumas responsabilidades nas associações e coletividades. Após o internamento, a medicação permitiu-me alguma descompressão e, no dia 21 pelas 9:15 da manhã desci para o bloco operatório.
Após 7h30m de intervenção, o tumor tinha sido todo retirado e eu fui transferido para a sala de recobro, onde permaneci mais 7 horas. Toda a recuperação correu bem, sem grandes dores e sempre com muita boa disposição. Após 10 dias foi-me dada alta para continuar a recuperar em casa. Passado cerca de 1 mês fui à consulta para ver como estava a recuperação e saber o resultado do tumor retirado. Até este dia sempre pensei para mim que o tumor era benigno, mas durante a consulta o médico deu-me as piores noticias e disse que o tumor era maligno e que para além disso tinha um mieloma múltiplo. Não sabia o que era um mieloma múltiplo. O médico informou-me que de entre “os piores este é um dos menos maus”.
Esta resposta não me tranquilizou, muito pelo contrário, fiquei de rastos. Comecei a ler sobre este tipo de cancro na internet mas a informação não era correta, visto que existiam páginas muito antigas e após filtrar informação e recorrer a fontes fidedignas, comecei a perceber o que eu tinha na realidade. Tudo ficou muito claro quando tive a primeira consulta de hematologia e me explicaram tudo ao pormenor sobre o mieloma múltiplo.
Sobre ser raro e sem cura e quais os tratamentos que iria ter que fazer. Nesta altura tudo está mais claro e daqui para a frente vejo esta vivência como uma passagem da minha vida e que quando terminar os tratamentos retomarei a minha vida de uma maneira diferente, com mais positivismo e confiança para fazer uma vida normal.
