Jorge Mendes
Testemunho de doente
07-11-2014
"Vivo com alegria, dando graças a Deus e aproveitando ao máximo todos os momentos em família."
"Sou o Jorge Mendes e passei por uma LMC.
No ano de 2006, alguns meses após o casamento com a mulher da minha vida, começaram a aparecer os primeiros sintomas, longe de imaginar o que nos esperava pela frente! Comecei a perder peso, o qual associei ao tipo de trabalho, que tinha alguma exigência física, suores noturnos, que achamos que seria da casa ser mais quente. Até que no inicio de julho desse ano, surgiu uma dor abdominal muito forte e desconfortável que me limitava os movimentos.
Decidi então recorrer ao serviço de urgência do meu Hospital de referência, onde me fizeram análises de sangue e um Rx, para estudar o que se passava. Quando se depararam com um aumento significativo dos glóbulos brancos e o baço muito aumentado, daí a dor abdominal e a obstipação que apresentava. Foi então que me transferiram para o IPO do Porto, para exames mais específicos, mas ainda sem perceber realmente o que se passava comigo. À chegada ao IPO, fui diretamente para um isolamento do serviço de hemato-oncologia para ser internado, nesse instante apercebi-me da nova realidade que me esperava e escorreram algumas lágrimas pelo meu rosto. Após a realização de um mielograma fizeram um diagnóstico mais diferenciado e diagnosticaram-me LMC (Leucemia Mielóide Crónica).
Comecei um tratamento específico para este tipo de leucemia, o Imatinib! Fui melhorando gradualmente, embora com algumas contrariedades que estão inerentes a estes tipos de tratamentos (vómitos, náuseas) cheguei a ficar com derrames oculares derivado ao esforço que fazia para vomitar. Era seguido com alguma frequência em consulta externa, já mais conformado com a minha situação, aprendendo a viver com a doença, aos poucos comecei a retomar a minha atividade profissional. Estava aparentemente tudo controlado, quando em mais um dia de consulta fomos confrontados com mais obstáculo, perda de resposta ao tratamento com Imatinib! Mais um dia difícil!! Chegámos a casa devastados com a notícia e sem saber o que fazer, pois o médico não tinha muitas mais opções, estava em curso um novo tratamento que ainda não tinha data para chegar a Portugal e o tempo ia passando…
O médico chegou ao ponto de propor-me para ir para Inglaterra para os chamados “clinical trials” , no fundo uma lotaria. Ficamos desesperados! E iniciei um tratamento mais antigo com Hidroxiureia, no sentido de aguardar uma alternativa ao meu caso. Após reunião de grupo foi activada a pesquisa de um dador para um possível transplante. Surpresa a minha, quando passado algum tempo o telemóvel toca, era o Dr. a informar que o novo tratamento já estava disponível em Portugal. Comecei o tratamento (Dasatinib) tendo resposta positiva, voltou a despertar uma nova esperança! Durante o período inicial deste tratamento foi colocada na mesa a possibilidade de realizar um transplante, dado existir um dador muito compatível e existir o risco de o tratamento atual deixar de ter resposta.
Posto isto, fui confrontado com a hipótese de realizar transplante o que acarretaria uma taxa de mortalidade de cerca de 30%, segundo o que me foi informado. Senti-me entre a espada e a parede, não era uma decisão fácil, pois eu sentia-me bem, mas não sabia até quando!
Decidi realizar o transplante de médula óssea (26 de Junho de 2007), passando pelas várias fases do transplante (isolamento, quimioterapia para destruir a médula e o transplante propriamente dito). No dia do transplante, senti que iria renascer, pois seria o primeiro dia aparentemente sem doença, com uma medula nova! Seguiram-se dias difíceis, com elevados riscos de infecção, cuidados redobrados e a contar os dias para uma resposta positiva do meu organismo à nova médula, que surgiu ao 11º dia. Após 40 dias de internamento tive alta, com muitas alterações da minha vida quotidiana, dados os cuidados que tinha que ter.
Os primeiros tempos após transplante não foram fáceis, tive algumas complicações que fui superando , com ajuda da minha companheira de sempre que esteve sempre do meu lado. Fui sujeito a grandes doses de corticoides o que me provocou desgaste dos ossos. Que mais tarde me levou a ser submetido à colocação de uma prótese da anca. Mais uma batalha superada, nesta guerra contra a doença.
Passados alguns anos, quando já me encontrava estabilizado, decidimos acrescentar um novo sentido à nossa vida como família. Iniciamos um tratamento de fertilidade, dadas a circunstâncias (fertilidade diminuída). No dia 14 de Abril de 2011 nasce o nosso príncipe, a nossa razão de viver! Agora sim, tinha uma família.
Em 2013 foi confrontado com a notícia de que iria ser pai novamente, mais um prémio ganho nesta lotaria da vida. Em 8 de Dezembro de 2014 nasce mais uma luz na minha vida, o nosso segundo filho.
Atualmente voltei a estudar, estou a frequentar o 2º ano do curso de Engenharia Mecânica, no ISEP (Porto),um sonho antigo!, vivo com alegria, dando graças a Deus e aproveitando ao máximo todos os momentos em família, tendo sempre presente que fui um doente com LMC, e que não sou imortal.
Jorge Mendes"

