Hermínio Costa
Testemunho de dador
29-03-2012
"A única esperança de vida para aquele doente era EU..."
"Olá a todos. Sou dador de sangue há já muitos anos e mais recentemente dador de medula. Espero que este meu post possa dissipar dúvidas, encorajar os indecisos e tentar que aqueles que até têm medo de agulhas, se inscrevam como dadores de medula.Há algum tempo atrás, conheci um Senhor, pai de uma criança colega dos meus filhos nos escuteiros, que me contou a história do filho, naquela altura com 11 anos de idade. Aquele jovem que eu ali via, alegre, agitado (tipo hiperactivo) e com uma ânsia de conhecer e curiosidade incrível, tinha sofrido de leucemia e tinha estado quase, quase a deixar este mundo...
No último instante apareceu um dador compatível que lhe salvou a vida. Entretanto foi-me contando passagens das várias etapas da doença e do que eles, pais, sofreram ao verem o filho com um sofrimento atroz e a definhar de dia para dia e eles impotentes para travar a doença. Contactaram todos os amigos, conhecidos, amigos dos conhecidos, etc, para tentarem encontrar alguém compatível e nada. Não aparecia ninguém compatível e o filho cada vez pior com a doença a miná-lo. Decidiram tentar uma 2ª gravidez na esperança de conseguirem salvar o filho mais velho. Para além da incerteza da compatibilidade havia também a incerteza do filho conseguir resistir à doença até o irmão nascer. Arriscaram, mas não chegou a ser necessário. Se entretanto não tivesse aparecido o dador compatível, o filho não teria aguentado até ao nascimento do irmão. Ninguém deve sofrer o que aquela criança sofreu nem aqueles pais passarem por tanto sofrimento.
A minha forma de contribuir foi inscrever-me no CEDACE como dador de medula e aguardar. Nesse dia fizeram uma pequena colheita de sangue para caracterizarem o meu tipo de medula. Durante algum tempo, penso que 6 anos, nunca me disseram nada. Até que um dia recebo uma chamada telefónica a perguntar se ainda estaria na disposição de fazer uma doação de medula. Claro que disse que sim e disseram que me contactariam posteriormente com mais informações. Passado mais algum tempo (semanas, meses talvez) voltaram a contactar-me para me deslocar ao CEDACE para novas análises, segundo me explicaram e em linguagem de leigo, para analisarem com mais detalhe o nível de compatibilidade. Mais alguns dias e volto a ser contactado para me deslocar ao CEDACE e ser posteriormente acompanhado ao IPO para realizar exames médicos, mais análises, RX, Ecografia, etc, e também uma consulta médica. Devo realçar a delicadeza e atenção com que fui tratado quer no CEDACE quer no IPO, bem como o profissionalismo e cuidado Dr. Ernesto Fernandez.
Na consulta, depois de ter os resultados de todos os exames que fiz, o Dr. Ernesto explicou-me todo o processo, opções e os aspectos mais difíceis do processo de doação de medula.
Fiquei a saber exactamente o que se iria passar, o que iria sentir, o que deveria fazer, etc. Ficou então marcada a data para a doação da medula. Nesse dia entregaram-me as injecções que deveria tomar, com o factor de crescimento e que se destinavam a estimular a produção de células medulares. Relativamente à identidade da pessoa que necessitava da medula, só soube que era uma pessoa grande e que por isso teria que tomar 8 injecções, o dobro do normalmente prescrito para uma pessoa de tamanho médio. Tudo bem, venham elas!
Neste dia soube uma coisa que me deixou, de alguma forma, apavorado e apreensivo. Nesta fase, enquanto eu tomava as injecções, o doente estava a ser submetido a um tratamento para eliminar as poucas defesas que ainda lhe restavam.
É um processo sem retorno, não há volta. Se me acontecesse alguma coisa, um acidente, uma doença por pequena que fosse, a doação não poderia ser feita e o doente morreria. Estes dias até à doação foram vividos com alguma ansiedade e medo. Mas como me disse o Dr. Ernesto “é um risco assumido pelo doente” e não há outra forma. A única esperança de vida para aquele doente era eu.
Comecei por tomar as injecções no posto médico mas depressa me apercebi que eu mesmo as poderia aplicar. Eram seringas e agulhas tão pequenas (tipo daquelas para insulina) que não teria qualquer problema em fazê-lo eu mesmo. Como efeitos secundários, o Dr. Ernesto disse-me que poderia sentir durante o tratamento algum desconforto, dor nos ossos e febre ligeira, facilmente atenuado com Paracetamol. Assim foi e as dores de facto apareceram, mas quando me lembrava do sofrimento de um doente com leucemia, e em particular daquele jovem que eu conheci, era quase como se não existissem. Para além disso fui contacto diariamente pelo IPO para saberem como eu estava, o que sentia, se o tratamento estava a resultar, se precisava de alguma coisa, demonstrando um cuidado e uma atenção a que não estou habituado da parte dos nossos serviços de saúde.
Acreditem que aquele desconforto e aquelas dorezinhas não são nada comparadas com o sofrimento daqueles doentes. Para além das insuportáveis dores físicas é também o tremendo desgaste psicológico de saberem que têm uma doença incurável e que, se não conseguirem encontrar alguém compatível para uma doação, vão morrer daí a dias.
Finalmente chegou o dia. Às 09H00 estava no IPO e deu-se início à doação. Num braço é feita a recolha do sangue que vai passar numa máquina que recolhe as células medulares devolvendo o restante sangue através de outro braço.
Este processo que é mais ou menos demorado consoante a quantidade de células necessárias, no meu caso durou cerca de 4 horas. Durante este tempo estive constantemente acompanhado pelo Dr. Ernesto e por enfermeiros que monitorizavam todo o processo. No final ainda me “obrigaram” a almoçar lá e só me deixaram sair depois de verificarem que eu estava em condições de o fazer. Puseram à minha disposição um táxi para me trazer até casa e insistiram para que eu o utilizasse, apesar de ter transportes públicos que trariam também em segurança.
Depois disto já fui contactado algumas vezes para saber como me encontrava de saúde, se tinha sentido alguma alteração e sei que ainda me irão contactar quando fizer um ano após a doação, para continuarem o acompanhamento.
Para finalizar duas observações:
Mais um elogio a todos os elementos do CEDACE e do IPO pela atenção, cuidado, carinho e dedicação que põem ao longo de todo o processo;
Uma pequena crítica que é também uma sugestão. Apesar de saber que faz todo o sentido em manter no anonimato a identidade do doente, eu gostava ao menos de saber se a doação resultou e se o doente melhorou. No fundo saber se contribui de alguma forma para eliminar o estigma de uma morte anunciada (para breve) e dar uma nova esperança de vida a uma pessoa. Apenas isso."
