Fernando Borges
Testemunho de doente
27-09-2012
"Lamentamos, Fernando, mas infelizmente os nossos receios confirmam-se. Os resultados dos mielogramas e restantes análises confirmam que o Fernando tem uma tricoleucemia”.
Foi assim, de uma forma suave, num misto profissional e humano, reflectindo algum nervosismo, próprio de um ser humano que tem uma notícia desagradável a transmitir a outro, que no dia 13 de Novembro de 2001, pelas 11 horas da manhã, no serviço de infecto-contagiosos do Hospital de Santa Maria, numa pequena sala, três médicas me informavam da razão de ter estado, por dois períodos, internado naquela unidade, ter perdido sete quilos em dez dias, a razão das dores musculares e de articulações, de dois meses de febres e longos períodos de quase inconsciência, de falhas de raciocínio.
Naquela sala, um “eterno” silêncio invadiu a atmosfera, quase parecendo poder-se tocar, tão forte era.
Enquanto essas palavras teimavam em ecoar, reparei que todos os olhos estavam virados para mim, enquanto os meus procuravam encontrar mais palavras que me pudessem transmitir algo. O quê, não sei…, apenas algo.
E o silêncio continuava a pairar no ar. De repente, não sei quanto tempo depois, da minha boca saiu algo como “pronto, já sei o que tenho. E agora, o que se segue?”. Nesse momento, aqueles olhos que para mim olhavam tentando descobrir tudo o que naquele momento se passava dentro de mim, olhos que deixavam transparecer algo entre a ternura, compaixão e receio, aliviaram-se de esperança. Talvez tenham visto que à sua frente estava alguém que dificilmente se deixaria envolver numa guerra sem ganhar algumas batalhas, de preferência todas.
Já na rua, e apenas aí, uma enorme raiva apoderou-se de mim. Não pela notícia, não por naquele momento não conseguir entender o certo e o errado, valores que até então me pareciam fáceis de separar. Não, a raiva que senti naquele momento, foi por ter descoberto naquela altura qual o motivo que me tinha levado a perder muitas da capacidade de raciocínio e resistência, levando-me a uma debilidade quase inconsciente, mas conscientemente aproveitada pelo jornal onde trabalhei quinze anos para me levarem a assinar uma rescisão de contrato de trabalho, após dezassete anos, sem uma única falta, sem uma única baixa.
Foi essa a raiva que ali explodiu. E naquele instante senti as lágrimas molhando os meus olhos. Era a raiva por verificar que os valores da condição humana de pouco valem, que dignidade muitas vezes não passa de uma simples palavra de dicionário. Mas foi nesse momento que senti, vindo do meu interior, toda uma força para enfrentar essa nova batalha, a leucemia. E foi nesse momento que a minha mente foi invadida por uma frase:-“Quem pensa em desistir, já desistiu antes de começar”. E foi nesse momento que eu resolvi não desistir, mas sim lutar. Lutar pela vida, lutar pela dignidade e condição humana. E foi ali, de costas para aquele imenso bloco de cimento e de janelas que resolvi iniciar uma luta contra um inimigo sem rosto, mas cujo nome eu conhecia, leucemia, escudando-me com a outra batalha que tinha que travar, a do desemprego.
Depois, seguiram-se as semanas de quimioterapia e o quase isolamento. Foram semanas em que procurei encontrar-me comigo, com a vida que me rodeava e os seus valores, semanas durante as quais alguns daqueles que julgava amigos se foram afastando, enquanto outros, que mal conhecia, deram um passo na minha direcção. Foram semanas em que a minha infância regressava diariamente aos meus pensamentos e aos meus sonhos.
Mas também foi a redescoberta da pintura, algo de que me tinha esquecido, há mais de vinte anos. E foi esta a forma que encontrei para passar as longas, quase infinitas horas do dia, abstraindo-me de outros pensamentos, ou do simples “deixar passar o tempo”, do entregar-me.
Depois, foram as dezenas de exposições feitas a pessoas a quem costumava ouvir falar de solidariedade, de respeito, de ética…, pessoas que eram e são ministros e lideres parlamentares. Nelas, para além de expor e alertar para a forma degradante, inconstitucional, imoral e de desrespeito pela condição humana como tinha acontecido a minha rescisão de contrato, procurava que a justiça não fosse uma palavra vã, que o sentimento humano valesse algo mais do que palavras bonitas, embora a esperança em ter alguma resposta fosse quase nula. Mas era outra forma de ocupar o tempo. E tinha razão. Respostas, nem uma.
E quando já não havia mais ninguém a quem expor a minha situação, iniciei contactos que me permitissem regressar à actividade profissional, embora ainda debilitado, nunca escondendo que a leucemia fazia parte da minha vida. Também aqui, foi uma forma de ocupar o tempo, de olhar o futuro com alguma esperança, pois o que estava a viver não era o fim de nada, mas sim o princípio de algo.
Entretanto, aconteceu uma das mais belas fases da minha vida, talvez aquela em que me senti mais útil para com a sociedade. Foi o início de mais de um ano de voluntariado na Lusotransplante/CEDACE, e posteriormente na Associação Portuguesa Contra a Leucemia onde, diariamente, e para além de ter tido o prazer de trabalhar com PESSOAS que dão o seu melhor para que outros possam, numa qualquer manhã, ao olharem-se no espelho, encontrar um sorriso de esperança reflectido, procurava ajudar as centenas de pessoas que nos procuravam, interessados em serem potenciais dadores de medula, ou apenas para compartilhar a sua dor. Com essas PESSOAS cresci como ser humano, e com essas PESSOAS consegui encontrar alguma tranquilidade, paz de espírito, razão para existir e mais alguma força para enfrentar mais um dia. O que nem sempre era fácil.
Mas, desse ano de voluntariado, os momentos que sempre recordarei como os mais intensos e que guardarei com mais carinho, serão aqueles minutos ou horas a conversar com outros “companheiros” ou seus familiares que procuravam desesperadamente libertar-se da angústia e desespero em que viviam, nem que fosse por escassos segundos, e sentir que o terem estado a falar com alguém que vivia o mesmo drama que eles, mas que estava ali, significava um pouco mais de esperança. E quando o telefone se desligava, e do outro lado ouvia um já aliviado e sorridente “até à próxima”, por mim atravessava uma pura onda de felicidade.
Mas um dia chegou até mim a coragem de alguém que se dignou responder a uma das minhas cartas, vinda de alguém que sabia que a leucemia não é propriamente lepra ou outra doença contagiosa, alguém que achou que a leucemia não faz das pessoas incompetentes ou incapazes. Uma ideia que ainda reside na mente de muitos, por pura ignorância ou por pura falta de consciência humana.
Agora, clinicamente controlado e estabilizado, embora por vezes aconteçam as dores musculares e de articulações, olho para trás sem mágoas, tentando esquecer o ruído de todas as portas que se me fecharam, mas apenas procurando ali encontrar as forças que tive naqueles momentos mais difíceis e usa-las em cada novo dia que vem amanha, ao mesmo tempo que tento oferecê-las e transmitir a quem por vezes me procura.
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