Cláudia Gonçalves
Testemunho de doente
28-09-2015
"Tenho Leucemia Mieloide Crónica, mas ela não me tem a mim!"
Há 3 anos e 7 meses fui diagnosticada com Leucemia Mieloide Crónica.
Esta não é uma história bonita, é a história da minha vida. Mãe solteira, dores crónicas, 3 empregos, divorciada e com 35 anos, descobri num exame de rotina. Ora não me faltava mais nada! Estava a trabalhar recentemente num hospital privado e a medicina do trabalho incluía bastantes exames. Lembro-me de fazer um post no facebook a auto-elogiar a minha saúde de ferro - Função respiratória excelente, coração maravilhoso, audição e visão acima da media. Sou um Super-Herói pensei! Só faltavam os resultados das analises.
Dias depois abri o envelope com o resultado, milhões e milhões de glóbulos brancos, huum Subi ao 4ª andar para ir à consulta. Cheguei lá cansada. Entrei e a medica estava nervosa à minha espera. - Cláudia tem leucemia. É um tipo raro da doença, não sei explicar muito bem... Continuou a falar, acho eu... Muito bem disse eu, como se trata? - O especialista vem já falar consigo. E assim foi, no dia seguinte tive uma consulta no Hospital dos Capuchos. Picada no osso, mais umas analises, e sem saber mais resultados sai dos Capuchos já com IMATINIB para tomar. Para sempre. Nem respira! Ninguém me sabe dizer porque fiquei assim ou se podia ter evitado. Afinal sou um Super-Herói Mutante! - Desde que não me tirem o vinho está tudo bem! No mesmo dia fui trabalhar. Mas seguiram-se tempos muito duros e efeitos secundários complicados. Os valores não baixavam e tive de tomar Hidroxiureia, mais chato ainda.
Não queria faltar ao trabalho, mas tinha que andar de mascara, não tinha força para abrir uma lata de atum quanto mais trabalhar. Tive de abrandar. Comecei a melhorar. Estive sempre optimista, mas nunca falei muito sobre o assunto, não tinha tempo para estar doente. Acho que estive em negação até agora. Quando alguns amigos souberam foi a desgraça total, dava por mim a acalma-los - pronto está tudo bem, não chores eu vou ficar bem, estamos todos a morrer! Bola para frente. A LMC trouxe-me queda de cabelo, pele muito seca, pálida tipo vampiro, caibras em músculos que não sabia que tinha, um elefante em cada perna por causa retenção de líquidos, náuseas, cansaço geral, falta de concentração... Mas trouxe-me também tempo, urgência de viver, ainda mais respeito pela natureza, mais amor autentico e nos dias bons uma estupidez indiscritível. Também ganhei imunidade contra coisas ou situações que não me fazem bem, e evito-as com mais descontração, com menos culpa.
Eu até sou mais gira que na fotografia mas, a auto-estima não estava nos píncaros, já trintona, com uma filha (linda, esperta agora com 10 anos), divorciada e ainda por cima com cancro...pronto ninguém me quer. Eu própria minei as minhas relações. Mas a vida dá voltas. A minha vida tem dado tantas voltas que tinha de escrever uma mini-serie comico-dramática de terror. Encontrei de novo um amor. Dei mais uma volta, peguei na pequenita e mudei-me para a Irlanda para estarmos juntos. O Tiago gosta de mim e eu gosto dele. Ele não percebe nada de nada, não está na minha pele, e ainda bem. Esta é a minha história. “Decidi ser feliz porque é melhor para a saúde” Cláudia, 39 anos, Mãe e apaixonada. Tenho LMC, mas ela não me tem a mim!
