Carolina Melo
Testemunho de doente
10-04-2012
"Um dia, a minha médica ligou à minha mãe: apareceu um dador!"
Chamo-me Carolina e tenho 28 anos.
Aos 25 anos, era uma jovem saudável e com uma vida normal. Tinha dores nas costas há muito tempo mas os médicos nunca conseguiram encontrar nenhum problema. Um dia, apareceram uns nódulos na pele e fui ao dermatologista. A biópsia não deixou grandes dúvidas e fui internada no Hospital de Sta. Maria com diagnóstico de leucemia mielóide aguda.
O internamento foi assustador mas os médicos, enfermeiros e auxiliares trataram-me tão bem que ganhei coragem para enfrentar todos os exames a que fui sujeita. Assim que comecei a quimioterapia melhorei. Os nódulos desapareceram e as dores diminuíram imediatamente. Porém, tive complicações a que por pouco não resistia. Perdi muito peso, fui alimentada por via parentérica, já que nem a sonda eu tolerava. Deixei de andar, de engolir, de falar e até de ver.
Com o tempo, com a fisioterapia e com o apoio incondicional de familiares e amigos fui recuperando e ficando preparada para a fase do transplante. Tenho dois irmãos, mas nenhum deles era compatível. Várias campanhas, de norte a sul do país, procuravam a pessoa que podia salvar a minha vida. Muita gente se solidarizou com a Causa e ficámos todos muito sensibilizados com a disponibilidade que completos estranhos mostraram para ajudar e tentar salvar a minha vida.
Um dia, a minha médica ligou à minha mãe: apareceu um dador! Sempre soube que ele existia e que viria a tempo. Não era meu irmão, mas tinha características que o tornavam tão próximo quanto isso e estava pronto para me salvar. Ia passar a fazer parte de mim.
O transplante foi realizado a 26 de Maio de 2010. Correu bem. O meu estado já não era tão frágil e, por isso, foram apenas 6 semanas de internamento. O isolamento continuou em casa, com muitos altos e baixos, dias difíceis e dias de muita alegria. Fui sempre superando os obstáculos. A presença da minha mãe, do meu pai, das minhas tias e dos meus irmãos foi inabalável, mas toda a família garantiu que nunca me sentisse sozinha.
Hoje em dia levo uma vida quase normal. Consultas de rotina e exames são uma constante, mas nem os problemas de um sistema imunitário delicado me levam a alegria de ter um dia-a-dia novamente meu, com autonomia e independência. Sou freelancer e, como estou em casa, já posso trabalhar. Aos pouquinhos vou retomando as minhas viagens e recuperando tudo o que a leucemia me quis roubar.
Nada disto teria sido possível sem o excelente tratamento de toda a equipa de Hematologia, sem todo o suporte de família e amigos, sem a solidariedade de toda a comunidade e, claro, sem a bondade e a disponibilidade do meu dador. Ele salvou-me e gostava que ele soubesse que estou muito grata e que estou a fazer tudo para aproveitar esta nova vida, a oportunidade que ele me deu.
Todos nós temos uma fonte de vida dentro de nós. Registe-se como dador de medula óssea e de sangue. Dê uma parte de si e não perca nada. Verá que não muda só a vida de alguém, como também a sua ficará imensamente melhor. Tão melhor...




