Ana Silva
Testemunho de doente
11-09-2015
"Fui vivendo aproveitando cada momento porque me sentia uma sobrevivente"
Aos 14 anos desabou sobre a minha vida uma tempestade. Uma tempestade má, perversa, aterradora” quando me foi diagnosticado um linfoma de Hodgkin. Durante cerca de um ano, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa foi a minha casa. E foi entre tratamentos de quimioterapia e radioterapia que fui crescendo. A batalha foi dura, com altos e baixos, com progressos e retrocessos até à vitória final. Entrei em remissão e durante 10 anos vivi com o coração nas mãos, com angústia, com medos, mas fui vivendo aproveitando cada momento porque me sentia uma sobrevivente.
Após 10 anos de remissão (o prazo indicado para uma remissão total) tive uma verdadeira recompensa – um bebé, o meu primeiro filho, um sonho concretizado. E posso hoje dizer com convicção que começou nesse momento a minha segunda vida. Uma vida a sério, sem as sombras escuras da doença, sem os barulhos das camas arrastadas pelos corredores dos hospitais, sem o som do choro de almas desgastadas, sem o cheiro da morte… E vivi intensamente, cada dia, cada hora, cada minuto.
Houve momentos menos bons sem dúvida neste percurso, mas sentia-me com garra para enfrentar tudo, afinal era a minha segunda oportunidade, tinha que aproveitar tudo mesmo tudo. Até porque quando se sobrevive a uma situação de quase morte passa-se a encarar a vida de uma forma muito diferente, muita mais sentida. Vivi até aquele dia, 3 de Março de 2015 (com 41 anos) em que ao entrar no gabinete da consulta de endrocronologia e como que já adivinhando o que iria ouvir, após a biopsia numa mamografia de rotina, a Drª Conceição Pereira com um olhar perdido e voz arrastada me transmitiu : “ Ana, a menina tem um carcinoma…”
Mais uma vez tristeza e angustia, cirurgia e radioterapia. E agora aguardar que mais uma vez tudo esteja sanado e que o sr. Cancro me abandone de vez…
